A Revolução da Consciência
É nítido o desenvolvimento
de uma certa inquietação entre as pessoas diante da velocidade
e pressão do mundo moderno. Frente a tanta competitividade, muitas
vezes perdemos o contato com pontos importantes da vida: família,
lazer, paz, realização. E, enquanto ainda não encontramos
a saída para nossos problemas, somos movidos a perguntar: o que
então nos espera para o futuro?
Antes de mais nada, é necessário saber que hoje vivemos
a chamada revolução da informação. Estamos
na era da Internet, do correio eletrônico, telefone celular, interatividade.
Com o desenvolvimento da tecnologia, encurtamos distâncias e agilizamos
consultas, nos comunicando em fração de segundos, realizando
os mais variados negócios, democratizando a informação.
E esta é de fato a glória do século XX. A tecnologia
da informação finalmente nos fornece ferramentas para
vislumbrar um ambiente mais democrático, onde liberdade de expressão
e livre comunicação sejam práticas comuns e cotidianas.
Demos um salto gigantesco rumo à construção de
uma nova sociedade, onde controle e censura cedam lugar à cidadania
e participação do indivíduo.
Mas apenas tecnologia não basta. É claro que a democracia
necessita de ferramentas concretas para a circulação da
informação e consequente liberdade de expressão,
mas qualidade de conteúdo também é vital. Não
adianta apenas a existência de uma cultura tecnológica
globalizada. É necessário uma visão baseada em
valores, consciência e integridade, uma cultura ética e,
verdadeiramente, globocêntrica. Nas palavras de Ken Wilber: "(...)
o ser humano é inicialmente biocêntrico e egocêntrico,
perdido em seus próprios impulsos e incapaz de colocar-se no
lugar do outro. Quando o egocêntrico dá passagem ao sociocêntrico,
o ser humano passa a tratar os outros de seu grupo com a mesma cortesia
que ele dá a si mesmo. E finalmente com a moralidade globocêntrica,
o ser humano aventura-se a tratar todos os seres humanos com a mesma
dignidade ou no mínimo com oportunidades iguais."
Contudo, esta ainda não parece uma perspectiva dos tempos atuais.
Paralelamente ao intenso desenvolvimento tecnológico, ainda somos
extremamente pobres em nossa vida sentimental. Ultimamente, apesar de
prodigiosa inteligência, só conseguimos nos distanciar
uns dos outros. Vírus e "hackers" são preocupações
entre os internautas. Violência, fome, catástrofes e corrupção
são as manchetes dos jornais. Brigas, desentendimentos e separações
são nossos assuntos mais comuns. Poder, prazer e status é
o que as propagandas e modismos nos oferecem em troca do nosso dinheiro.
Pressa, crise e ansiedade são as marcas do cotidiano, onde "realidade
virtual" e "internetholic" são apenas alguns dos
novos termos de uma sociedade repetidamente falsa e manipuladora.
Como disse Peter Russell, parece que ainda estamos meio despertos para
nossos potenciais, quem sabe ainda perplexos diante da sedução
do poder tecnológico, capaz de manipular um mundo sedento por
ser explorado. Mas não devemos interpretar tecnologia de forma
negativa. Muito pelo contrário, ela é mais do que natural,
define o caráter evolutivo e complexo da humanidade, que não
pode e nunca será detido.
Mas devemos conduzir este processo com cuidado e atenção.
Já dizia Herman Melville, escritor americano: "facas nos
servem ou nos cortam, conforme as pegamos pelo cabo ou pela lâmina".
Não adianta apenas se adaptar à mudança. É
preciso agregar valor, profundidade e consciência àquilo
que desejamos mudar.
Afinal, para quem anseia obter respostas para suas próprias questões,
não é somente aos outros que devemos perguntar. Devemos
na verdade ser exploradores de um novo mundo, protagonistas de uma nova
era que surge não apenas ligada ao conhecimento e tecnologia
mas, fundamentalmente, cravada em uma postura de vida consciente. É
preciso finalmente caminhar rumo a uma realidade mais justa e coerente,
baseada não apenas na inteligência objetiva, mas em sabedoria,
valores e auto-percepção - na revolução
da consciência.
________________________________________________________________________________________________________
Publicado no "Estado de Minas", 22/07/1999 - http://www.castellani.psc.br
|